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O Novo Bullying: Como Ensinar Empatia aos Filhos

Criança excluída por colegas na escola, representando o novo bullying silencioso.
O Novo Bullying: Como Ensinar Empatia aos Filhos


O novo bullying: quando a “brincadeira” também magoa


Há conversas que nenhum pai ou mãe quer ter. Uma delas começa quase sempre pela mesma pergunta: “E se o meu filho estiver a sofrer bullying?” É uma preocupação legítima, especialmente numa altura em que a escola já não termina quando toca a campainha. As amizades continuam no WhatsApp, nos grupos de turma, nos jogos online, no TikTok, no Instagram e em tantas outras plataformas onde uma palavra, uma fotografia ou um comentário podem espalhar-se em segundos.


Mas existe outra pergunta, mais difícil e muitas vezes evitada: e se o meu filho estiver, mesmo sem plena consciência, a magoar alguém?


O novo bullying nem sempre aparece como empurrões, insultos diretos ou ameaças claras. Muitas vezes surge disfarçado de piada, ironia, exclusão social, comentários em grupo, olhares combinados, alcunhas, prints partilhados, memes privados ou frases como “foi só a brincar”. É silencioso, socialmente aceite por alguns grupos e, por isso, mais difícil de identificar.


Falar sobre isto não significa acusar as crianças. Significa educá-las para perceberem que o impacto das suas atitudes importa tanto como a intenção. E que ser popular, engraçado ou influente nunca deve ser usado para diminuir outra pessoa.


A Direção-Geral da Educação tem recursos específicos sobre bullying e ciberbullying através do Centro de Sensibilização SeguraNet, o que mostra que este é um tema presente e relevante nas escolas portuguesas.  A UNICEF também alerta que o cyberbullying pode acontecer em redes sociais, plataformas de mensagens, jogos online e telemóveis, através de comportamentos repetidos que assustam, envergonham ou magoam a criança ou jovem visado.



O que é o novo bullying e porque deve preocupar as famílias?


O novo bullying é uma forma mais subtil, social e muitas vezes digital de magoar outra criança ou jovem. Pode acontecer sem agressão física, sem gritos e até sem insultos evidentes. Acontece quando alguém usa a sua influência, estatuto social, humor, grupo de amigos ou presença online para excluir, humilhar, ridicularizar ou diminuir outra pessoa.


A grande diferença é que, hoje, muitas situações parecem pequenas quando vistas isoladamente. Um comentário. Uma piada. Um emoji. Um vídeo. Um “ninguém te chamou”. Um grupo onde todos foram incluídos menos uma criança. Uma fotografia publicada com intenção de gozar. Um segredo espalhado num chat.


O problema é que, para quem recebe, aquilo não é pequeno.

Pode ser repetido. Pode ser público. Pode causar vergonha. Pode afetar a autoestima, a vontade de ir à escola, o sono, o rendimento escolar e a confiança nos outros. A APAV refere sinais como mal-estar físico associado à escola, dores de cabeça ou de estômago, insónias, pesadelos, recusa em frequentar a escola e diminuição do rendimento escolar como possíveis consequências em situações de bullying.


Por isso, a pergunta já não deve ser apenas “o meu filho está protegido?”. Deve ser também: “o meu filho sabe proteger os outros das suas próprias atitudes?”



Porque é tão importante falar do bullying silencioso em casa?


Durante muito tempo, o bullying foi imaginado como uma situação evidente: um agressor, uma vítima e uma agressão clara. Mas a realidade das crianças e adolescentes é mais complexa. Muitas vezes, há um grupo. Há espectadores. Há quem ria. Há quem grave. Há quem partilhe. Há quem fique calado para não ser o próximo alvo.


E é aqui que os pais têm um papel essencial.


A criança pode não se ver como alguém que pratica bullying. Pode pensar que está apenas a ser engraçada, a seguir o grupo ou a responder a uma provocação. Pode dizer: “Toda a gente se ri”, “ele também goza”, “ela leva tudo a mal”, “não foi nada”, “era só uma piada”.


Mas uma piada deixa de ser inocente quando alguém é sempre o alvo.

Uma brincadeira deixa de ser saudável quando uma criança se sente humilhada, isolada ou inferiorizada.


Um comentário deixa de ser inofensivo quando é usado para ganhar estatuto à custa da dor de outra pessoa.


Em casa, é importante ensinar que a intenção não apaga o impacto. Uma criança pode não querer destruir a autoestima de alguém, mas pode fazê-lo se não aprender a reconhecer limites.


Isto é especialmente importante numa cultura onde, muitas vezes, ainda se desvaloriza o sofrimento emocional com frases como:

“São coisas de crianças.”

“Também passámos por isso e sobrevivemos.”

“Hoje em dia ofendem-se com tudo.”

“Ele tem de aprender a defender-se.”


Estas frases podem parecer práticas, mas muitas vezes silenciam a criança que sofre e desculpam a criança que magoa. Educar para a empatia não é criar filhos frágeis. É criar filhos conscientes.



Como reconhecer se o seu filho pode estar a magoar alguém?


É desconfortável pensar nisso, mas é necessário. Uma criança que pratica bullying não é necessariamente “má”. Pode estar a repetir padrões, a tentar pertencer a um grupo, a procurar atenção, a lidar mal com insegurança ou a não compreender a dimensão do que faz.


O mais importante é não entrar em negação automática. Quando a escola, outro pai ou uma criança traz uma queixa, a primeira reação não deve ser: “O meu filho nunca faria isso.” Deve ser: “Vou ouvir, perceber e agir.”


1. Observe como fala dos colegas


Preste atenção a frases como:

“Ele é mesmo estranho.”

“Ninguém gosta dela.”

“Ele merece.”

“Ela é dramática.”

“Foi só uma brincadeira.”

“Se não aguenta, o problema é dela.”


Estas frases não provam, por si só, que existe bullying. Mas podem mostrar falta de empatia, normalização da exclusão ou dificuldade em assumir responsabilidade.


2. Repare no tipo de humor que usa


O humor é saudável quando aproxima. Mas pode tornar-se uma arma quando serve para humilhar.


Se o seu filho faz piadas constantes sobre o corpo, roupa, sotaque, notas, família, forma de falar, interesses ou dificuldades de outra criança, vale a pena intervir. A pergunta não é “teve graça?”. A pergunta é: “a outra pessoa também se sentiu respeitada?”


3. Esteja atenta aos grupos digitais


Hoje, muito do bullying acontece em espaços onde os adultos não estão: grupos de WhatsApp, chats de jogos, mensagens privadas, stories, comentários, vídeos curtos, emojis e stickers.


Sinais de alerta podem incluir esconder o telemóvel de forma excessiva, apagar conversas, rir-se de mensagens que não quer mostrar, ficar defensivo quando se fala de grupos da escola ou participar em conversas onde alguém é constantemente ridicularizado.


Isto não significa invadir a privacidade da criança sem critério. Significa ter supervisão adequada à idade e manter uma relação onde o mundo digital também é conversado.


4. Veja como reage quando alguém se magoa


Uma criança que responde sempre com “está a exagerar” pode estar a ter dificuldade em reconhecer o impacto das suas ações.


Ensine uma frase simples: “Eu posso não ter tido intenção de magoar, mas preciso de me importar se magoei.”

Esta frase muda muita coisa. Tira a criança da defesa automática e aproxima-a da responsabilidade.


5. Analise se existe necessidade de dominar


Algumas crianças tentam controlar quem entra no grupo, quem se senta com quem, quem é convidado, quem participa, quem pode brincar ou quem fica de fora. Isto pode parecer liderança, mas nem sempre é.


Liderança saudável inclui. Dominação exclui.

Se o seu filho usa influência social para decidir quem pertence e quem não pertence, vale a pena ajudá-lo a perceber que popularidade não dá direito a ferir.



Guia prático para ensinar empatia, limite e responsabilidade


Falar sobre bullying não deve acontecer apenas quando há um problema. Deve fazer parte da educação emocional da criança, tal como ensinamos a agradecer, pedir desculpa, atravessar a rua ou cuidar do material escolar.


Comece por explicar o que é bullying de forma simples


Pode dizer:

“Bullying acontece quando alguém é magoado de forma repetida, de propósito ou sem cuidado pelo impacto, por outra pessoa ou grupo que tem mais força, influência ou poder naquele momento. Pode ser com palavras, atitudes, exclusão, imagens, mensagens ou brincadeiras que deixam de ser brincadeiras.”

Esta explicação ajuda a criança a perceber que bullying não é só bater.


Também pode perguntar:

“Consegues lembrar-te de uma situação em que alguém foi deixado de fora?”

“Já viste alguém ser gozado por todos?”

“Alguma vez riste de uma piada que talvez tenha magoado outra pessoa?”

“Como achas que essa pessoa se sentiu?”


O objetivo não é envergonhar. É desenvolver consciência.


Ensine a diferença entre intenção e impacto


As crianças e adolescentes agarram-se muito à intenção: “Mas eu não queria magoar.” Isso pode ser verdade. Mas não chega.


Explique com exemplos:

“Se eu piso o pé de alguém sem querer, continuo a pedir desculpa, certo? Não fiz de propósito, mas magoei. Com as palavras também é assim.”

Esta comparação é simples e funciona bem.


Depois, ensine três passos:

  1. Perceber o que aconteceu.

  2. Reconhecer o impacto.

  3. Reparar o erro.


A reparação pode ser pedir desculpa, parar o comportamento, defender a pessoa numa próxima situação, apagar uma publicação, sair de um grupo onde alguém é humilhado ou falar com um adulto.


Fale sobre o “foi só a brincar”


Esta é uma das frases mais perigosas no bullying silencioso. Nem toda a brincadeira é bullying, claro. As crianças provocam-se, riem, testam limites. Mas há uma regra simples:


É brincadeira quando todos se sentem incluídos e seguros. Deixa de ser brincadeira quando alguém é sempre o alvo, fica envergonhado ou pede para parar.


Pode ensinar ao seu filho esta pergunta:

“Eu estaria confortável se fizessem isto comigo à frente dos outros?”

Se a resposta for não, talvez não deva fazer.


Trabalhe o papel de quem assiste


Nem todas as crianças praticam bullying diretamente. Muitas assistem. Riem. Partilham. Ficam em silêncio. Não querem problemas. Têm medo de perder o grupo.

Mas o silêncio também tem impacto.


Ensine frases que a criança pode usar sem se colocar em grande exposição:

“Não teve piada.”

“Deixem isso.”

“Vamos falar de outra coisa.”

“Ela já pediu para parar.”

“Não vou partilhar isso.”

“Apaga essa foto.”


Também pode ensinar que pedir ajuda a um adulto não é ser “queixinhas”. É proteger alguém.


Ajude a criança a lidar com a pressão do grupo


Muitas crianças sabem que algo está errado, mas fazem na mesma porque querem pertencer. Isto é humano. Os adultos também cedem à pressão social.

Em vez de dizer apenas “não faças isso”, treine respostas.


Exemplo:

Se alguém disser: “Vamos criar um grupo sem ela.”

A criança pode responder: “Não quero fazer isso. Depois imagina se fosse connosco.”


Se alguém enviar uma fotografia humilhante:

“Não partilhem isso. Ela não autorizou.”


Se o grupo gozar com um colega:

“Já chega. Vamos parar.”


Estas frases precisam de ser treinadas antes. No momento, sob pressão, é mais difícil improvisar.


Use histórias do dia a dia


Não precisa transformar tudo numa palestra. Pode aproveitar filmes, séries, livros, notícias adequadas à idade ou situações da escola.


Pergunte:

“Quem tinha mais poder naquela situação?”

“Quem ficou calado?”

“O que podia ter sido feito de forma diferente?”

“Qual era a diferença entre ser engraçado e ser cruel?”


Estas conversas pequenas, repetidas ao longo do tempo, educam mais do que um grande sermão depois do problema acontecer.



O novo bullying no mundo digital


O bullying digital tem uma característica particularmente difícil: acompanha a criança para casa. Antigamente, muitas situações ficavam no recreio ou no caminho da escola. Hoje, podem continuar no quarto, no sofá, à hora de jantar ou antes de dormir.


A UNICEF explica que o cyberbullying pode acontecer em redes sociais, mensagens, plataformas de jogos e telemóveis, e pode incluir comportamentos repetidos para assustar, irritar ou envergonhar alguém.


Em Portugal, a DGE também distingue e trabalha a prevenção do bullying e do ciberbullying através de recursos educativos e iniciativas ligadas à segurança digital.


Formas comuns de bullying digital


O novo bullying pode aparecer assim:

Criar grupos para excluir alguém.

Partilhar prints privados.

Espalhar rumores por mensagem.

Fazer comentários depreciativos em fotografias.

Publicar vídeos sem autorização.

Usar stickers ou memes para humilhar.

Combinar ignorar uma pessoa online e presencialmente.

Fazer sondagens ofensivas.

Usar contas falsas para provocar.

Retirar alguém de um grupo como forma de castigo social.


Muitas destas situações são vistas pelos jovens como “normais”. Por isso, os pais precisam de falar concretamente, não apenas dizer “porta-te bem online”.


Regras digitais que ajudam


Pode criar regras simples em casa:

Não partilhar imagens de outra pessoa sem autorização.

Não enviar prints de conversas privadas.

Não participar em grupos criados para excluir ou gozar.

Não comentar o corpo, a roupa ou a aparência de colegas.

Não escrever online o que não teria coragem de dizer com um adulto presente.

Parar quando alguém pede para parar.

Pedir ajuda se um grupo estiver a tornar-se cruel.


Estas regras devem ser ajustadas à idade, mas a base é sempre a mesma: respeito, privacidade e responsabilidade.



Opções por idade: como adaptar a conversa


Nem todas as crianças compreendem o tema da mesma forma. A conversa deve acompanhar a maturidade.


Dos 4 aos 6 anos


Nesta fase, fale de forma muito concreta:

“Não usamos palavras para magoar.”

“Quando alguém diz para parar, paramos.”

“Todos podem brincar, mas ninguém é obrigado a brincar sempre com todos.”

“Não gozamos com o corpo, a voz ou a roupa de ninguém.”

Use bonecos, histórias e exemplos simples.


Dos 7 aos 10 anos


Aqui já pode falar sobre grupos, exclusão e responsabilidade.

Pergunte:

“Como sabes se uma brincadeira passou do limite?”

“O que podes fazer se vires alguém a ser deixado de fora?”

“Como te sentirias se todos rissem de ti?”

É uma boa idade para ensinar reparação: pedir desculpa, incluir, corrigir, assumir.


Dos 11 aos 14 anos


Nesta fase, o grupo ganha muito peso. Fale sobre pressão social, popularidade, vergonha e mundo digital.

Evite discursos moralistas muito longos. Os pré-adolescentes desligam rapidamente quando sentem julgamento. Seja direta:

“Eu sei que nesta idade pertencer ao grupo pesa muito. Mas nunca precisas de diminuir alguém para seres aceite.”

Converse também sobre prints, grupos privados, comentários e exposição online.


A partir dos 15 anos


Com adolescentes, o ideal é conversar com respeito e maturidade. Fale sobre caráter, reputação digital, consentimento, responsabilidade legal e impacto emocional.


Pergunte:

“Que tipo de pessoa queres ser dentro de um grupo?”

“Como gostavas que os teus amigos reagissem se fosses tu o alvo?”

“O que é que a tua presença faz num grupo: aumenta a segurança ou aumenta o medo?”

Estas perguntas ajudam o jovem a pensar sem se sentir tratado como criança pequena.



Erros comuns dos pais e como evitá-los


Erro 1: Defender automaticamente o filho


É natural querer proteger. Mas proteger não é negar. Quando surge uma queixa, respire antes de reagir.


Em vez de dizer “o meu filho nunca faria isso”, experimente:

“Obrigada por me dizer. Vou conversar com ele e perceber melhor.”

Isto mostra maturidade e abre caminho para resolver.


Erro 2: Confundir culpa com responsabilidade


Muitos pais evitam o tema porque têm medo de “culpar” a criança. Mas responsabilidade não é destruição emocional. Pelo contrário, é uma oportunidade de crescimento.


A mensagem deve ser:

“Tu não és uma má pessoa, mas essa atitude magoou. Agora precisas de reparar.”


Erro 3: Desvalorizar a dor do outro


Frases como “isso são coisas de miúdos” podem parecer tranquilizadoras, mas ensinam que a dor emocional não importa.


Troque por:

“Pode parecer pequeno para quem fez, mas pode ter sido muito pesado para quem recebeu.”


Erro 4: Focar apenas no castigo


Castigos podem interromper um comportamento, mas nem sempre ensinam empatia. Se a criança apenas perde o telemóvel, mas não compreende o impacto, pode voltar a repetir.

Consequências são importantes, mas devem vir acompanhadas de conversa, reparação e acompanhamento.


Erro 5: Não observar o exemplo em casa


As crianças aprendem muito pelo que veem.

Se em casa se goza com o corpo dos outros, se se humilha alguém “na brincadeira”, se se fala mal de familiares, professores ou colegas, a criança absorve esse padrão.


A pergunta difícil é:

“Que tipo de comentários o meu filho ouve em casa?”

Isto não é sobre pais perfeitos. É sobre coerência.



Ideias criativas para ensinar empatia sem parecer uma palestra


O exercício da troca de lugar


Pergunte:

“Imagina que eras tu a chegar à escola e todos já tinham combinado não falar contigo. Como seria o teu dia?”

Depois deixe a criança responder. Não corrija logo. Dê espaço.


O teste da repetição


Explique:

“Uma piada uma vez pode ser só uma piada. Todos os dias, contra a mesma pessoa, pode tornar-se humilhação.”

Este teste ajuda a criança a perceber o peso da repetição.


O semáforo das brincadeiras


Use três cores:

Verde: todos riem, todos se sentem bem, ninguém é exposto.

Amarelo: alguém ficou desconfortável, calado ou mudou de expressão.

Vermelho: alguém pediu para parar, ficou envergonhado, chorou ou foi excluído.

É simples e funciona especialmente bem com crianças mais novas.


A pergunta antes de publicar


Antes de enviar, comentar ou publicar, ensinar a criança a perguntar:

“Tenho autorização?”

“Pode humilhar alguém?”

“Eu gostava que fizessem isto comigo?”

“Daqui a uma semana, isto ainda me vai parecer correto?”


O elogio invisível


Desafie o seu filho a fazer uma coisa boa por alguém sem contar a ninguém: incluir um colega, defender alguém, convidar uma criança mais isolada, elogiar um esforço.

Isto ensina que bondade não precisa de palco.



Como simplificar sem perder firmeza


Muitos pais sentem que precisam de uma conversa perfeita sobre bullying. Não precisam. Precisam de conversas consistentes.


Pode resumir tudo em cinco ideias:

Não uses a tua força para diminuir ninguém.

Ser engraçado não dá direito a ferir.

Se alguém pede para parar, paras.

Se magoaste, repara.

Se vires alguém a ser humilhado, não ajudes a humilhação a crescer.


Estas frases podem ser repetidas muitas vezes, em diferentes idades e contextos.


Também é importante lembrar: o objetivo não é criar uma criança que nunca erra. Isso não existe. O objetivo é criar uma criança que reconhece, corrige e aprende.



Checklist prático para pais: o que observar e o que ensinar


Use esta lista como ponto de partida.

O meu filho entende que bullying pode ser verbal, social, físico ou digital?

Sabe distinguir brincadeira de humilhação?

Percebe que excluir repetidamente também magoa?

Sabe que não deve partilhar fotografias, vídeos ou prints sem autorização?

Consegue pedir desculpa sem acrescentar “mas era só a brincar”?

Sabe defender alguém sem aumentar o conflito?

Tem abertura para falar comigo sobre grupos, escola e redes sociais?

Eu conheço minimamente os espaços digitais onde ele convive?

Em casa, damos exemplo de respeito quando falamos dos outros?

Quando ele erra, ensinamos reparação ou apenas aplicamos castigo?

Esta checklist não serve para criar culpa. Serve para orientar.



Educar para não magoar também é proteger


Quando falamos de bullying, é natural pensarmos primeiro na criança que sofre. E devemos pensar. Devemos proteger, escutar, agir e procurar apoio sempre que necessário.


Mas também precisamos de olhar para a outra parte: a criança que goza, exclui, partilha, ri, cala-se ou segue o grupo. Muitas vezes, essa criança também precisa de orientação. Precisa de adultos que não a desculpem cegamente, mas que também não a reduzam ao pior comportamento que teve.


O novo bullying vive nos detalhes. No comentário que parece inocente. Na piada repetida. No grupo onde alguém fica de fora. No print enviado sem pensar. No silêncio de quem viu e não fez nada.


E é por isso que a educação começa antes do problema. Começa nas conversas pequenas, no exemplo diário, na forma como falamos dos outros, na coragem de dizer “isso não foi correto” e na capacidade de ensinar que reparar é mais importante do que fingir que nada aconteceu.


Criar filhos empáticos não significa criar filhos sem personalidade. Significa criar filhos capazes de usar a sua presença para tornar os ambientes mais seguros, e não mais cruéis.


Porque o verdadeiro caráter de uma criança também se vê quando ela tem poder: poder para incluir ou excluir, defender ou humilhar, parar ou continuar.

E é aí que a educação feita em casa aparece.



Já conversou com o seu filho sobre a diferença entre brincadeira e humilhação?

Acha que hoje o bullying silencioso é mais difícil de identificar do que o bullying direto?

Como ensina o seu filho a agir quando vê outra criança a ser excluída?



FAQ: perguntas frequentes sobre o novo bullying


O que é o novo bullying?

O novo bullying é uma forma mais subtil de agressão emocional, social ou digital. Pode aparecer em piadas repetidas, exclusão de grupos, comentários online, partilha de imagens, rumores ou humilhações disfarçadas de brincadeira. Nem sempre envolve agressão física, mas pode afetar profundamente a autoestima, a segurança emocional e a vontade da criança de ir à escola.


Como saber se o meu filho está a praticar bullying?

Alguns sinais podem incluir gozar frequentemente com colegas, excluir crianças de propósito, justificar tudo com “foi só a brincar”, mostrar pouca empatia quando alguém fica magoado ou esconder conversas digitais. Estes sinais não devem gerar pânico, mas merecem atenção. O ideal é conversar com calma, ouvir a escola e ajudar a criança a reparar comportamentos.


O que devo fazer se a escola disser que o meu filho magoou alguém?

Evite negar automaticamente. Ouça a escola, converse com o seu filho e procure perceber o contexto. Depois, foque-se na responsabilidade: o que aconteceu, quem foi afetado e como pode ser reparado. A criança precisa de perceber que errar não a torna má, mas ignorar o impacto das suas atitudes não é aceitável.


Como ensinar o meu filho a não participar em bullying?

Ensine frases simples para usar quando presencia uma situação injusta, como “não teve piada”, “vamos parar” ou “não partilhem isso”. Explique que rir, gravar ou partilhar também pode alimentar a humilhação. A criança precisa de saber que pode pedir ajuda a um adulto e que defender alguém não é ser queixinhas.


O cyberbullying é tão grave como o bullying presencial?

Sim. O cyberbullying pode ser muito grave porque acompanha a criança para fora da escola e pode espalhar-se rapidamente. Mensagens, imagens, vídeos e comentários podem ser vistos por muitas pessoas e permanecer online. Por isso, é essencial ensinar regras digitais claras sobre privacidade, respeito, consentimento e responsabilidade.

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