Mães e Pais Perfeitos Não Existem: O Valor dos Erros na Educação dos Filhos
- Mady Moreira
- 23 de set. de 2025
- 6 min de leitura

Mães e Pais Perfeitos Não Existem: Por Que Errar com os Filhos é Parte do Processo
Quando um filho chega ao mundo, nasce também uma enorme responsabilidade: cuidar, proteger, ensinar e amar incondicionalmente. Junto a essa missão, surge um peso invisível — a ideia de que os pais devem ser perfeitos. Que não podem perder a paciência, levantar a voz ou tomar decisões equivocadas.
Mas a verdade é outra. Não existem pais perfeitos. Existem pais humanos, que falham, se arrependem, aprendem e tentam de novo. Errar faz parte do processo de educar. O mais importante não é a ausência de erros, mas como lidamos com eles.
A ciência confirma isso: o cérebro das crianças é plástico, capaz de se adaptar, aprender e cicatrizar. O trauma não nasce de um erro isolado, mas da repetição de experiências marcadas por insegurança, desatenção ou ameaça. A boa notícia é que memórias dolorosas podem ser ressignificadas através de novas conexões afetivas, rotinas estáveis e reparações conscientes.
Neste artigo, vamos explorar:
O mito da perfeição parental.
Como os erros afetam (ou não) o desenvolvimento da criança.
O poder da plasticidade cerebral.
Exemplos concretos de erros comuns e formas de reparação.
O papel da rotina e da presença.
O que a ciência diz sobre vínculos seguros.
O mito da perfeição na parentalidade
A sociedade cria expectativas irreais sobre a parentalidade. As redes sociais mostram famílias sorridentes, casas organizadas e crianças sempre felizes, reforçando a ideia de que bons pais nunca falham.
Essa visão é não só ilusória, como perigosa. Gera culpa constante e medo de errar, quando a realidade é que errar é inevitável. Não existe manual de instruções universal. Cada criança é única e cada contexto familiar tem os seus próprios desafios.
O mais saudável é abandonar a busca pela perfeição e substituir essa meta por outra mais realista: ser suficientemente bom. Isso significa estar disponível, oferecer amor, reparar falhas e dar segurança emocional, sem exigir de si um padrão inatingível.
Como os erros impactam as crianças
Um grito num momento de exaustão ou uma decisão precipitada não determinam o futuro de uma criança. A ciência mostra que um erro isolado não é traumático. O problema surge quando esses erros se tornam padrões repetidos sem reparação.
Uma criança que recebe críticas ocasionais, mas depois ouve um pedido de desculpa, aprende que conflitos podem ser resolvidos.
Já uma criança, constantemente criticada, ignorada ou exposta a humilhações cresce com a sensação de não ser digna de amor.
Portanto, não é o erro que define o impacto, mas a frequência e a ausência de reconexão.
A plasticidade cerebral: a boa notícia para os pais
O cérebro infantil é altamente plástico, ou seja, tem capacidade de se reorganizar e criar novas conexões ao longo do tempo.
Isso significa que, mesmo que um pai ou mãe falhe, pode sempre reconstruir a ligação. Um pedido de desculpa, uma conversa afetuosa, um abraço após um conflito — tudo isso são experiências que ajudam a ressignificar a memória dolorosa.
O trauma não desaparece por completo, mas perde força quando a criança acumula novas experiências de segurança. É como uma página manchada num caderno: a marca fica lá, mas muitas outras páginas podem ser preenchidas com histórias bonitas.
Erros comuns e como corrigi-los
Aqui estão exemplos concretos de situações do dia a dia em que pais e mães erram — e formas práticas de reparar e transformar esses momentos.
1. Perder a paciência e gritar
Erro: Após um dia cansativo, o pai grita porque o filho demorou a arrumar os brinquedos.
Efeito: A criança assusta-se, pode sentir-se injustiçada ou rejeitada.
Reparação: Quando a calma volta, o pai pode dizer:
Desculpa ter gritado. Estava cansado e reagi mal. O que quero é que aprendas a cuidar das tuas coisas, não que tenhas medo de mim.
Esse gesto mostra que o amor é maior que a falha e ensina a lidar com emoções.
2. Fazer comparações entre irmãos ou colegas
Erro: A mãe diz: “Olha como o teu irmão já fez os trabalhos, por que não és assim também?”
Efeito: A criança sente-se inferior, podendo internalizar a ideia de que nunca é suficiente.
Reparação: Depois, a mãe pode corrigir:
Percebi que não fui justa contigo. Cada um tem o seu ritmo. Quero apoiar-te para encontrares o teu jeito de fazer.
Assim, transforma-se a comparação em valorização da individualidade.
3. Ignorar uma birra ou choro de frustração
Erro: O pai finge não ouvir o choro da filha porque acha exagero.
Efeito: A criança sente que as suas emoções não são importantes.
Reparação: Mais tarde, pode dizer:
Sei que te sentiste triste e parecia que eu não me importava. Eu devia ter parado para ouvir-te. Conta-me o que sentiste.
Com isso, a criança aprende que as emoções podem ser reconhecidas e validadas.
4. Prometer algo e não cumprir
Erro: A mãe promete brincar depois do trabalho, mas acaba por não o fazer.
Efeito: A criança sente-se desvalorizada e perde confiança na palavra da mãe.
Reparação: Na primeira oportunidade, pode assumir:
Ontem disse que ia brincar contigo e não cumpri. Foi injusto. Hoje vou reservar esse tempo só para nós.
Este gesto devolve confiança e ensina responsabilidade.
5. Responder com sarcasmo ou ironia
Erro: Diante de uma pergunta repetitiva, o pai responde com ironia.
Efeito: A criança pode sentir-se ridicularizada.
Reparação: Mais tarde, pode explicar:
Respondi de um jeito que não foi simpático. Desculpa. A tua pergunta é importante para mim.
Isso mostra respeito e abre espaço para novas perguntas no futuro.
6. Castigos desproporcionais
Erro: Por uma pequena desobediência, a mãe decide proibir a televisão durante uma semana inteira.
Efeito: A criança sente que a punição não corresponde ao erro e pode guardar rancor.
Reparação: A mãe pode rever a decisão:
Pensei melhor e percebi que o castigo foi exagerado. Vamos ajustar para que aprendas sem sentir que é injusto.
Assim, a disciplina transforma-se em oportunidade de aprendizagem, não de ressentimento.
7. Usar frases de ameaça
Erro: O pai diz: “Se continuares assim, vou deixar-te aqui sozinho.”
Efeito: A criança experimenta medo de abandono, um dos medos mais intensos na infância.
Reparação: Depois, pode garantir:
Quando disse aquilo, estava nervoso. Nunca te deixaria sozinho. A minha função é estar contigo e proteger-te.
Essa reparação devolve a sensação de segurança essencial para o vínculo.
O papel da rotina e da previsibilidade
Além da reparação, a rotina é um grande protetor emocional. Crianças que sabem a hora de comer, dormir e brincar sentem que o mundo é estável. Essa previsibilidade funciona como uma rede de segurança, ajudando-as a enfrentar melhor os erros ocasionais dos pais.
Rituais simples, como a história antes de dormir, o beijo de boa noite ou a refeição em família, reforçam o sentido de pertença e protegem contra a insegurança.
A força do afeto consistente
Não é a ausência de falhas que constrói vínculos saudáveis, mas sim a presença consistente. Quando os pais estão disponíveis para abraçar, ouvir e acalmar, a criança desenvolve confiança no mundo e em si própria.
Afeto consistente é olhar nos olhos, sorrir, segurar a mão, estar disponível para escutar. Pequenos gestos que, repetidos diariamente, criam uma base emocional sólida.
O que a ciência confirma
Van der Kolk (2014) mostra como o corpo guarda marcas emocionais, mas também como pode cicatrizar com novas experiências de segurança.
Perry & Szalavitz (2006) relatam casos extremos de crianças traumatizadas que, através de vínculos reparadores, encontraram caminhos de recuperação.
Schore (2019) explica que o lado direito do cérebro — ligado às emoções e à empatia — é moldado por interações afetivas, confirmando a importância do vínculo parental.
Pais e mães não precisam de ser perfeitos. Precisam de ser humanos: errar, reconhecer, pedir desculpa, reparar e continuar a oferecer amor.
O que marca o futuro dos filhos não é a ausência de falhas, mas a presença constante de cuidado e a capacidade de transformar os erros em oportunidades de reconexão.
Errar com os filhos é inevitável. Mas amar, reparar e crescer juntos é uma escolha diária que fortalece vínculos e constrói memórias seguras para toda a vida.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. Um erro pode prejudicar o vínculo com o meu filho?
Um erro isolado não define a relação. O que importa é a reparação e o padrão geral de afeto e segurança.
2. É errado pedir desculpa ao meu filho?
Não. Pedir desculpa fortalece a relação, ensina empatia e mostra que todos podem aprender com os erros.
3. Como saber se os meus erros estão a deixar marcas negativas?
Se notar medo constante, regressões no comportamento, insónia ou tristeza persistente, pode ser sinal de sofrimento emocional. Nestes casos, é recomendável procurar ajuda especializada.
4. O trauma pode ser superado?
As memórias dolorosas não desaparecem, mas podem ser suavizadas por novas experiências de cuidado e segurança.
5. Como ser um “pai suficientemente bom”?
Estar presente, oferecer amor, manter rotinas previsíveis, reconhecer falhas e reparar quando necessário.



















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