Como Lidar com a Agressividade Infantil em Cada Idade
- Mady Moreira
- 2 de out de 2025
- 6 min de leitura

“Ele mordeu o colega.”
“Ela gritou comigo no supermercado.”
“O meu filho debocha sempre que eu peço alguma coisa.”
Se és pai, mãe ou educador, já deves ter ouvido (ou vivido) situações como estas. A reação imediata de muitos adultos é pensar: “Esta criança é malcriada!”. Mas a ciência mostra outra realidade: a agressividade infantil não é sinal de má educação, mas sim parte natural do desenvolvimento cerebral.
De acordo com Siegel & Bryson (2016), no livro O Cérebro da Criança, os comportamentos agressivos são manifestações de um cérebro ainda imaturo, em construção, que não possui todas as ferramentas para lidar com frustração, raiva ou desejo de poder. A boa notícia? Com limites claros, empatia e alternativas práticas, a agressividade pode ser transformada em habilidades sociais fundamentais para a vida adulta: resiliência, empatia, comunicação e autorregulação.
Este artigo explora como lidar com a agressividade em cada fase do desenvolvimento — desde os bebés que mordem até os pré-adolescentes que desafiam com sarcasmo — trazendo estratégias práticas, exemplos reais e explicações fundamentadas em neurociência.
O que é agressividade infantil (e o que não é)
Antes de entrarmos nas fases específicas, precisamos esclarecer um ponto essencial: agressividade não é sinónimo de violência, nem de falta de educação.
A agressividade é uma energia natural do ser humano, relacionada à sobrevivência, autopreservação e conquista de autonomia.
Em crianças, essa energia manifesta-se de forma desorganizada porque o cérebro ainda não aprendeu a regulá-la.
Não é “manha” nem “birra sem motivo”. É uma forma de expressão emocional em desenvolvimento.
👉 Como explicam Blair & Raver (2015), a capacidade de autorregulação (isto é, controlar impulsos, gerir frustrações e adiar recompensas) depende de uma lenta maturação do córtex pré-frontal, que se prolonga até a idade adulta jovem.
Portanto, não esperar que a criança “deixe de ser agressiva sozinha” é um erro. A agressividade não desaparece: transforma-se, quando orientada corretamente.
Bebés (0-2 anos): Mordidas, tapas e choros intensos
Por que acontece?
Nos primeiros anos, o bebé ainda não tem linguagem para expressar emoções complexas. Se sente frustração, medo ou desejo de explorar, o corpo responde: morder, puxar cabelo, bater, chorar intensamente.
A amígdala cerebral (centro das emoções) é hiperativa, enquanto as áreas de autorregulação são imaturas. É como um carro com motor potente mas sem travões.
Exemplos comuns
O bebé que morde o seio da mãe durante a amamentação.
A criança de 18 meses que bate no irmão mais velho quando este tira-lhe o brinquedo.
O bebé que se atira ao chão a chorar no supermercado porque quer o pacote de bolachas.
Como lidar na prática
Não revidar fisicamente (nada de tapas ou palmadas): isso só reforça a agressividade como modelo de comunicação.
Nomear a emoção: “Estás zangado porque querias brincar mais.”
Redirecionar: oferecer um mordedor em vez de permitir que morda o colega.
Conter com calma: segurar com firmeza mas carinho, mostrando segurança.
Diálogo possível
Bebé bate na mãe.
Mãe: “Não se bate. Vejo que estás zangado. Vamos bater na almofada juntos, pode ser?”
👉 O cérebro aprende: que existem limites claros, mas que os adultos oferecem alternativas seguras e afetuosas.
Primeira infância (3-5 anos): Gritos, birras e empurrões
Por que acontece?
A criança já fala, mas o controlo dos impulsos continua frágil. O “quero já” domina, e qualquer frustração desencadeia birras.
Aos 4 anos, o córtex pré-frontal ainda está a formar conexões importantes. É natural que a criança se desorganize facilmente.
Exemplos comuns
Birras quando não pode levar todos os brinquedos para a cama.
Empurrar o colega no parque porque queria o escorrega primeiro.
Gritar com a mãe: “Não gosto de ti!”
Como lidar na prática
Regras simples e repetidas: frases curtas como “Não se bate”.
Oferecer alternativas: “Não podes gritar assim. Podes pedir ajuda com a tua voz calma.”
Dar escolhas limitadas: “Queres beber água no copo azul ou no vermelho?”
Ensinar reparação: “Bateste no João. Agora vamos juntos perguntar se ele está bem.”
Diálogo possível
Criança: (atira brinquedo) “Não quero!”
Pai: “Não atiramos brinquedos. Estás zangado. Queres pisar forte no chão para descarregar?”
👉 O cérebro aprende: que a frustração pode ser descarregada de forma não destrutiva e que os adultos ajudam a organizar emoções.
Crianças em idade escolar (6-8 anos): Deboches, desafios e competição
Por que acontece?
Nesta idade, a linguagem já está desenvolvida e a agressividade aparece em forma de palavras: deboches, gozo, tentativas de humilhar. É uma fase de busca por poder social.
Exemplos comuns
Rir-se do colega por perder o jogo.
Dizer ao pai: “Tu não mandas em mim!”
Responder com ironia: “Pois, claro, eu é que sou sempre o culpado.”
Como lidar na prática
Não cair no deboche: manter firmeza sem ironizar de volta.
Ensinar empatia: “Imagina se dissessem isso a ti, como te sentirias?”
Treinar comunicação assertiva: frases como “Não gostei disso.”
Elogiar quando usa palavras positivas para se expressar.
Diálogo possível
Criança: “És mesmo chato!”
Mãe: “Não aceito que me fales assim. Se estás zangado, podes dizer: ‘Mãe, preciso de espaço’.”
👉 O cérebro aprende: que palavras têm poder e devem ser usadas com responsabilidade.
Crianças mais velhas (9-11 anos): Explosões emocionais e confronto com regras
Por que acontece?
Aqui, a criança já entende regras mas testa constantemente os limites. Quer mais autonomia e pode reagir com raiva quando se sente controlada.
Exemplos comuns
Atirar o comando da televisão porque perdeu no jogo.
Responder ao professor: “Não vou fazer!”
Gritar com os pais: “Vocês não percebem nada!”
Como lidar na prática
Validar antes de corrigir: “Percebo que estás frustrado, mas não podes partir as coisas.”
Criar espaços de calma: técnicas de respiração, cantinho tranquilo.
Negociar regras em conjunto: envolver a criança aumenta a adesão.
Reconhecer progressos: “Conseguiste controlar a raiva antes de gritar, parabéns.”
Diálogo possível
Criança: (bate a porta com força)
Pai: “Percebo que estás irritado. A porta não é culpada. Queres contar-me o que te deixou assim?”
👉 O cérebro aprende: que pode expressar-se com autonomia, mas precisa respeitar limites.
Pré-adolescentes (12 anos em diante): Sarcasmo e confrontos
Por que acontece?
Na pré-adolescência, o cérebro passa por grande reorganização. A amígdala está em alta atividade, criando emoções intensas, enquanto o autocontrolo racional ainda não acompanha. Surge o sarcasmo, a contestação e a tendência a enfrentar pais e professores.
Exemplos comuns
“Tu não percebes nada da minha vida.”
“Toda a gente faz isso, só eu não posso.”
Bater portas, isolar-se ou responder com sarcasmo.
Como lidar na prática
Evitar lutas de poder: não entrar em escalada de gritos.
Manter respeito firme: “Não aceito que me fales assim, mas quero ouvir o que sentes.”
Dar espaço para reflexão: permitir algum tempo antes de conversar.
Ser modelo: pais que se controlam mostram como é possível regular emoções.
Diálogo possível
Adolescente: “Vocês são ridículos.”
Mãe: “Não aceito que nos insultes. Quando estiveres pronto para falar com respeito, eu quero ouvir.”
👉 O cérebro aprende: que pode ser ouvido, mas precisa respeitar o outro para manter relações saudáveis.
Estratégias gerais para todas as idades
Consistência: crianças precisam de previsibilidade.
Empatia: validar emoções não é aceitar agressividade, mas mostrar que os sentimentos são legítimos.
Modelagem: a forma como o adulto lida com a sua própria raiva é o maior exemplo.
Reparação: mais importante que punir é ensinar a reparar o dano feito.
A agressividade infantil não é um erro, mas um sinal de crescimento. Com limites firmes e empatia, os pais tornam-se arquitetos emocionais: ajudam o cérebro da criança a aprender que a raiva pode ser transformada em comunicação, resiliência e empatia.
Este é um trabalho de longo prazo, mas que gera adultos mais conscientes, fortes e capazes de relacionamentos saudáveis.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. O meu filho é agressivo. Preciso levá-lo a um psicólogo?
Nem sempre. Se a agressividade é pontual e adequada à idade, pode ser trabalhada em casa. Se for intensa, persistente ou acompanhada de sofrimento, é importante procurar apoio profissional.
2. A escola deve agir como os pais?
Sim. Criança precisa de coerência entre casa e escola para aprender autorregulação.
3. Castigo físico resolve?
Não. Só aumenta medo e pode reforçar padrões de agressividade.
4. O que fazer se a criança agride um colega?
Separar a situação, acalmar, e depois ensinar reparação — pedir desculpa, ajudar o colega.
5. A agressividade vai desaparecer com a idade?
Não necessariamente. Sem orientação, pode tornar-se padrão. Com limites + empatia, transforma-se em habilidade social.



















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